sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Entendendo a Monarquia, de Saul, Davi a Salomão – Parte 4

A profecia e a política

Uma palavra

Se há uma coisa que aparece clara nos Livros dos reis é a atuação política dos profetas. O profeta Natã praticamente encaminha a sucessão de Davi, fazendo com que o partido de Salomão predomine sobre o partido de seu irmão Adonias. O profeta Aias, de silo, incita Jeroboão a rebelar-se contra Roboão, provocando a divisão do reino (1Rs 11-12).

O mesmo profeta acabará condenando a dinastia de Jeroboão, infiel à Aliança, pregando a sua derrubada (1Rs 14.7-16). O profeta Jeú instiga a revolta contra o rei Baasa (1Rs 16.7-10). O profeta Elias promove resistência contra Acabe e Jezabel. Acusado de agitador, o profeta foge para o estrangeiro e seus seguidores são perseguidos e mortos (1Rs 18.1-18).

O profeta Miquéias, filho de Lemla, opões-se a Acabe e acaba sendo preso (1Rs 22.19-28). O profeta Eliseu manda ungir o general Jeú como rei e o apóia numa sangrenta guerra contra o rei Jorão e os profetas de Baal (2Rs 9-10). No próprio exercício de sua missão como "homens de Deus" ou porta-vozes de Javé, os profetas desempenham um papel político.

Alguns aparecem ao lado do trono como conselheiros do rei, como é o caso do profeta Natã, na corte de Davi (2Sm7). Isto, porém, não impede que erga sua voz e, em nome de Deus, condene os erros do rei (2Sm 12.1-15). Aparecem também profetas ou profetisas independentes, a quem o rei recorre em momentos de crise. É o caso do profeta Isaías, consultado pelo rei Ezequias (2Rs 19.1-34), ou da profetisa Hulda, consultada pelo rei Josias (2Rs 22.11-20). Mas em geral eles vivem afastados do palácio real e pronunciam seus oráculos ou sentenças com total liberdade e autoridade (1Rs 12.22-24;13.1-5;21.17-23;22.19-23;2Rs 3.14-19).

Alguns são mencionados simplesmente como "profeta" , ou "homem de Deus", ou " um dos filhos dos profetas", sem o nome próprio, sinal de que são gente do povo.

Na sua ambição pelo controle total da sociedade e na sua ganância pelo poder, os reis, como qualquer governo, necessitavam do apoio religioso. Não bastava apenas colocar o templo e os sacerdotes a seu serviço (1Rs 8.3-6;12.31-32; 2Rs 11.17-19; 2Rs 16.10-12), mas queriam ainda o apoio dos profetas para seus planos e ações, porque os profetas sempre tiveram um grande valor religioso aos olhos do povo. Assim, abriram espaço na sua corte para profetas que, na maioria dos casos, estavam a serviço dos interesses do rei, contra o povo (2Rs 22.19-23). Estes eram profetas oficiais, profetas do rei, falsos profetas e não verdadeiros profetas reconhecidos pelo povo. Nos livros proféticos aparecem acusações muitos fortes contra esses profetas mentirosos, bajuladores e impostores. Quem quiser ver uma amostra leia Jr 23.9-38 .

Nas histórias dos profetas Elias e Eliseu é interessante notar sua experiência de vida, não só com o povo, mas como gente do povo. Antes de ser chamado para os atos mais decisivos de sua missão profética, Elias passou pelo menos três anos na casa da viúva de Sarepta. Note-se que, sem o apoio dessa mulher que o acolheu, sustentou e protegeu, ele não teria podido cumprir sua missão profética. Eliseu trabalhava na lavoura, quando Elias o chamou( 1Rs 19.19-21).

Na narrativa sobre Eliseu aparecem várias mulheres: a mulher de um dos irmãos profetas, em favor da qual fez o milagre da multiplicação do óleo (2Rs 4.1-7). A sunamita que o acolhe e, em recompensa, ganha um filho que morre e Eliseu o ressuscita (4.8-37; 8.1-6). Jezabel, que é executada conforme Elias tinha profetizado, (9.30-37). A rinha Atalia e Josaba (2Rs 11.1-16). Eliseu convivia com os "filhos dos profetas", que eram grupos tipicamente populares (2Rs 2.3-18;4.38-44).

A Aliança entre YHWH e seu povo nunca combinou muito bem com as Alianças entre sacerdotes e reis, entre templos e palácios, entre altares e tronos. É triste lembrar que, no tempo da colonização do Brasil, quando se cometeram tantos crimes contra os índios e os negros, falava-se muito da Aliança entre a cruz e a espada! As Alianças entre as instituições e os poderes geralmente não são favoráveis ao povo.

2 comentários:

  1. A paz do Senhor, moré.
    Muito bom o comentário que fizeste sobre o Israel monárquico, corroborando de forma mui considerável para os meus estudos.
    Acredito que este simplório comentário, porém mui enriquecedor, tenha acrescentado os conhecimetos de todos os leitores deste blog e, de todos quantos amam história, como eu.
    O desenrolar da história do povo de Deus é algo lindo. É Deus mostrando e provando que Ele é o criador da história, por quem se desenvolve a história, quem controla e intervém na história.
    Ainda que no Israel monárquico tivera homens pecadores, que abandonaram o Senhor, Deus realizou o seu projeto e, o Messias que havia sido prometido, descendeu em carne de homens que de forma alguma puderam impedir o cumprimento do projeto divino tão maravilhoso que é a salvação da humanidade em Cristo Jesus.
    Obrigado pelas postagens mestre, que nos ajudam a olhar para os textos bíblicos de forma diferente, a fim de percebermos o sistema político, econômico, social e religioso que viviam o povo de Deus, durante a monarquia. E ao que parece mudaram somente os personagens, porque a história se repete, mas o nosso Deus continua o mesmo, o Senhor da história.
    Um grande abraço e, por favor continue postando, porque o blog tem sido um meio pelo qual, os leitores tem adquirido um pouco mais de conhecimento Bíblico, já que muitas igrejas do Século XXI, não ensinan mais a Bíblia.

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  2. Assino embaixo, Rafael. Eu, diferente de vocês, ainda não amo história MAS até isso penso que Deus tem mudado em mim, ou seja, eu chegarei lá, rsrsrs...

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