segunda-feira, 9 de novembro de 2009

A Parábola das dez virgens – Mt 25.1-13 - Final

Essa não é a porta (v.10) da salvação, mas aquela pela qual se entra no desfrute das Bodas do Senhor.

Essa é a apresentação tardia (mais tarde)V.11, dos crentes ressuscitados diante do Senhor em virtude de não estarem apercebidos.

Aqui s sentença não vos conheço traz o sentido de não reconhecer, não aprovar. As virgens insensatas tinham as lâmpadas acesas, saíram ao encontro do Senhor, morreram e foram ressuscitadas e arrebatadas, mas foram tardias em pagar o preço para encher-se do Espírito Santo. Por causa disso, o Senhor não as quis reconhecer nem aprovar. Assim, não puderam participar das Suas Bodas. Elas perdem esse galardão dispensacional, mas não a sua salvação eterna.

Podemos então considerar:

  1. O propósito das virgens que foi o de se encontrarem com o esposo – sem dúvida um bom propósito. Quais são os propósitos que mais preocupam o pensamento humano? Alguns aspiram a, mais cedo ou mais tarde encontrarem-se com Cristo
  2. A prudência das virgens. Notemos que havia aparente semelhança exterior entre elas, mas fundamental diferença intima. Cinco prudentes, cinco loucas.
  3. O preparo das virgens para se encontrarem com o esposo era, então, azeite nas lâmpadas: uma figura do Espírito Santo. Qual é o preparo de que nós precisamos?
  4. A paciência das virgens. Houve uma demora inesperada, como também parece acontecer com segunda vinda de Cristo; e essa demora serviu para revelar a prudência das virgens. O decorrer dos anos descobre, em nós, o quê?
  5. O prêmio das virgens prudentes foi o de entrarem no gozo do noivo. Há galardão para o crente em Cristo, pois gozará futuramente a companhia do seu Senhor
  6. O prejuízo das virgens loucas foi a perda de toda essa alegria. O remorso por bênção perdidas pode bem ser um dos principais castigos impenitentes.

A lição da parábola é "Vigiai, porque não sabeis o dia nem a hora". Efeitos desta vigilância:

  1. Guarda-nos de demasiada preocupação com interesses atuais
  2. Preserva do desânimo que poderia resultar das provações do momento
  3. Inspira-nos com grande esperança para o porvir
  4. Preocupa-nos com o Cristo, não como sofredor, mas como Rei vindouro.

A Parábola das dez virgens – Mt 25.1-13 Parte 1

As dez virgens (Mt 25.1-13)

Após ouvir atentamente os "pregadores eletrônicos" abordarem o texto de Mt 25.1-13 e, observar algumas contradições,resolvi, atendendo a uma comunidade de Brasília –DF , outra do Rio Grande do Sul e uma de São Paulo Capital comentar de forma resumida o assunto.

Lembremo-nos que o sermão profético é interrompido por parábolas desde 24.32 até 25.31, e as destes capítulos ensinam outra vez a necessidade de vigilância (1-13) e fidelidade (14-30).

As virgens representam os cristãos, professos, vistos sob o ponto de vista da vida (2 Co 11.2, dos quais cinco são renascidos. Os crentes, que são o povo do reino, são como virgens castas. Como tais, sustentam o testemunho do Senhor (a lâmpada) nesta era tenebrosa e saem do mundo ao encontro do Senhor. Para tanto, precisam não somente do habitar interior do Espírito santo, mas também ser enchidos por Ele.

As lâmpadas representam o espírito dos crentes (Pv 20.27), que contém o Espírito de Deus como azeite (Rm 8.16). Os crentes irradiam a luz do Espírito de Deus do interior do seu espírito. Assim, tornam-se a luz do mundo e resplandecem como lâmpadas nas trevas desta era (Mt 5.14-16); Fp 2.15,16), sustentando o testemunho do Senhor para a glorificação de Deus.

O termo "saíram" (v.1) indica que os crentes estão saindo do mundo ao encontro do Cristo que há de vir. O noivo representa Cristo como alguém agradável e atraente (Jo 3.29; Mt 9.15).

Cinco (v.2)compõe-se de quatro mais um, o que significa que o homem (representado pelo número quatro) acrescido de Deus (representado pelo número um) assume responsabilidade.

O fato de cinco das virgens serem insensatas e cinco prudentes não indica que metade dos crentes são insensatos e metade prudentes. Indica, sim, que todos os crentes têm a responsabilidade de encher-se do Espírito santo.

O fato de serem insensatas não torna falsas essas cinco virgens. Em natureza, são iguais às cinco prudentes.

O azeite representa o Espírito Santo (Is 61.1; Hb 1.9).

O homem é um vaso feito para Deus (Rm 9.21,23, 24), e a sua personalidade está na alma. Portanto, as vasilhas aqui representam as almas dos crentes. As cinco virgens prudentes não somente têm azeite nas lâmpadas, mas também o levam nas vasilhas. O fato de terem azeite nas lâmpadas significa que o Espírito de Deus habita no seu espírito (Rm 8.9,16), e o fato de levarem azeite nas vasilhas significa que têm o Espírito de Deus enchendo e saturando as suas almas.

Existe ou não uma abóboda celestial no firmamento celestial?

A Bíblia está errada ao falar de uma abóboda celestial sobre a terra? (Jó 37.18)

Jó fala que Deus estendeu "o firmamento, que é sólido como espelho fundido" (Jó 37.18). De fato, a palavra hebraica para "firmamento" (raqia), que foi criado por Deus (cf. Gn 1.6), no dicionário hebraico é definida como um objeto sólido. Mas isso está em total conflito com o atual entendimento científico de que o espaço não é sólido e de que é altamente vazio.

É verdade que originalmente a palavra hebraica raqia significava um objeto sólido. Entretanto, o sentido não é determinado pela origem da palavra (etimologia), mas pelo uso. Quando referindo-se à atmosfera sobre a terra, "firmamento" com certeza não significa algo sólido.Isso é evidente por várias razões.

Primeiro, a palavra raqia (forjar, desenrolar) é traduzida corretamente em algumas versões como o verbo "expandir". Assim como o metal se expande e se afina quando batido (cf. Êx 39.3; Is 40.19), assim é o firmamento.

Segundo, o sentido básico de "desenrolar" pode ser usado independentemente de "forjar", como ocorre em várias passagens (cf. Sf 136.6; Is 42.5; 44.24). Isaías escreveu "Assim diz Deus, o Senhor, que criou os céus e os estendeu, formou a terra e a tudo quanto produz" (Is 42.5). Este mesmo verbo é empregado com o significado de estender cortinas ou tendas dentro das quais morar (o que não teria sentido algum se o verbo se referisse a uma ação que não deixasse espaço interior para nele a pessoa ficar). Isaías, por exemplo, falou que o Senhor "está assentado sobre a redondeza da terra, cujos moradores são como gafanhotos; é ele quem estende os céus como cortina e os desenrola como tenda para neles habitar" (Is 40.22).

Terceiro, a Bíblia menciona a chuva que cai do céu (Jó 36.27). Mas isso não teria sentido se o céu fosse uma abóboda metálica. Nem a Bíblia menciona buraco nessa abóboda metálica pelos quais a água passaria, caindo em forma de gotas. Ela fala, é claro, com uma linguagem figurada quando diz que "as comportas dos céus se abriram" (Gn 7.11), quando acontece o dilúvio. Mas essa expressão não é para ser tomada literalmente, da mesma forma como não tomamos de modo literal a seguinte frase dita por alguém: "estavam ali cinco gatos pingados".

Quarto, o relato da criação em Gênesis fala de aves que voam "sobre a terra, sob o firmamento dos céus" (Gn 1.20). Mas isso seria impossível se o céu fosse sólido. Assim, é mais apropriado traduzir raqia como o verbo "expandir" (como o faz a NVI), cujo sentido não conflita com o conceito de espaço da ciência moderna.

Quinto, mesmo que tomada literalmente, a afirmação de Jó (em 37.18) não diz que os céus são um "espelho fundido", mas apenas que eles s ao "como espelho fundido". Em outras palavras, trata-se de uma comparação feita quando o texto diz que Deus é realmente uma Torre Forte (cf. Pv 18.10). Além disso, o ponto de comparação em Jó não é a respeito da solidez dos "céus" e do espelho, mas da sua durabilidade (cf. a palavra chazaq no versículo 18).

Assim, quando tudo isso é levado em consideração, não há evidência de que a Bíblia esteja afirmando que o firmamento é uma abóboda metálica. E, portanto, não há conflito algum com a ciência moderna.

Deus Aprova a Mentira? Como Deus poderia usar “espíritos mentirosos” para fazer Sua vontade se Ele proíbe mentira?

Como Deus poderia usar "espíritos mentirosos" para fazer Sua vontade ele proíbe mentira?

As Escrituras ensinam que "Deus é a verdade" (Dt 32.4 SBTB) e que "é impossível que Deus minta" (Hb 6.18). Ainda, Deus nos ordena a não mentir (Êx 20.16), e ele punirá com severidade aqueles que forem mentirosos (Ap 21.8). Contudo, apesar de tudo isso, nesta passagem Deus é representado como Aquele que recruta um espírito de mentira para seduzir o rei Acabe a selar o seu próprio destino. O texto diz: "Eis que o Senhor pôs o espírito mentiroso na boca de todos estes teus profetas" (1Rs 22.23).

Vários fatores devem ser considerados para entendermos esta situação.

Primeiro, trata-se de uma visão. Como tal, é uma visão de uma cena no céu, que procura explicar a autoridade soberana de Deus com imagens de sua posição como rei.

Segundo, toda encenação disso representa Deus com a ampla autoridade que ele possui, de forma que até mesmo os espíritos malignos aparecem como estando sujeitos ao controle final de Deus.

Terceiro, o Deus da Bíblia, em contraste com os deuses das religiões pagãs, soberanamente está no controle de todas as coisas, inclusive das forças malignas que ele usa para realizar os seus bons propósitos (cf. Jó 1-3).

Quarto, a Bíblia às vezes fala de Deus "endurecer" o coração das pessoas ou ainda de enviar-lhes a "operação do erro, para darem crédito à mentira" (2Ts 2.11). Entretanto, examinando com mais cuidados o texto, descobrimos que Deus agiu assim somente nas pessoas que por si mesmas tinham endurecido o seu coração (Êx 8.15) e que não haviam dado "crédito à verdade" (2Ts 2.12).

Para resumir, Deus não está aprovando a mentira. Ele simplesmente a está utilizando para cumprir Seus propósitos. Deus não está promovendo a mentira, mas permitindo que ela venha trazer juízo sobre o mal.

Isso significa que o Senhor, visando os Seus propósitos de justiça, permitiu que Acabe fosse enganado por um espírito maligno, por meio do qual Deus sabia, segundo a sua onisciência, que a Sua soberania e boa vontade acabaria sendo realizada.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Deus: Arca, Morte, Dança e Esterilidade – Banalizações - Boas Intenções - Malícias – 2Sm 6 – Final

Em seguida vem a reação de toda esta confiança. "Davi teve medo de Jeová naquele dia, e disse: Como virá a mim a arca de Jeová? Assim passamos de um extremo a outro, e de acordo com a medida da nossa primeira confiança, vem a ser a profundeza do nosso desespero. Onde esperamos encontrar as provas de uma benigna aceitação e aprovação de Deus, temos, por vezes, achado os sinais do seu desagrado. Mas, como temos visto, o caso é simples. Como podia Deus aceitar o completo abandono da Sua Palavra e a adoção dos meios dos filisteus, quando Ele tinha revelado a Sua vontade? E isto feito bem publicamente, e por todo povo".

Obede-Edom. Receber a arca de Deus na sua casa era uma experiência inesperada. Dias antes ele não tria sonhado em tal coisa. Isso significa receber Cristo no coração. Para alguns, é uma experiência gloriosa e abençoada. Para outros é uma experiência ainda a ser realizada.

Podemos crer que Obede-Edom recebeu a arca reverente, humilde, esperançosamente, crendo que nisso ele fazia a vontade de Deus. Receber a arca de Deus na sua casa era uma experiência passageira. A arca não ficaria ali para sempre. Era necessário aproveitar bem as semanas, porque no ano seguinte não haveria oportunidade.

Davi. Neste trecho, parece-nos ser um homem piedoso, desejoso, sobretudo, de ter bem perto dele sempre o símbolo da presença de Deus. Somos assim, porventura, também desejosos de sentir Deus bem perto, mesmo nas nossas horas mais íntimas? Davi era um homem instruído, e compreendia que não podia aproximar-se de Deus sem o devido sacrifício (v.13).

Davi era um homem entusiasta, que não se poupava em demonstrar o seu fervor religioso. Davi era um homem generoso, que fez uma festa para o povo ao mesmo tempo que adorava a Deus.

Mical. É o tipo de uma pessoa carnal, que desprezava porque não compreendia um entusiasmo espiritual. Evidentemente, era indigna de ser esposa de Davi, porque ela não podia compreender seu culto a Deus; porque não era submissa, como deve ser uma esposa; porque usava um exagero malicioso e mentiroso em descrever a cena que presenciara (v.20); não podemos pensar que Davi tenha feito qualquer coisa indecente com o uso do vestuário de sacerdote. (vj Lv 16.4)

A conseqüência para Mical desta crítica carnal de um ato religioso foi perder a intimidade com Davi que, como esposa, havia de esperar (v.33).

Devemos recear que, em consequência de sentidos carnais em assuntos espirituais, percamos nossa intimidade com Cristo.

Deus: Arca, Morte, Dança e Esterilidade – Banalizações - Boas Intenções - Malícias – 2Sm 6 – Parte 1

Davi traz a arca para Perez-Uzá. 2Sm 6

Davi, embora quisesse ser um servo fiel, comete um grande erro que acarreta conseqüências graves. É bastante estranho que, num assunto como este, ele não indague nada de Deus nem se lembre da direção dada na Lei referente ao transporte da arca e vasos sagrados. Ainda mais estranho é que, de todas as pessoas apartadas para o serviço do santuário, não tenha havido nenhum sacerdote ou levita para advertir o bem-intencionado rei sobre o modo prescrito de conduzir a arca. Muito já tinham sofrido os filisteus devido à desonra feita à arca. Muito sofreram os homens de Betes-Semes.

Contudo o expediente dos filisteus – o carro de vacas – para descobrirem, da melhor maneira que sabiam se deveras foi a mão de Jeová que os ferira: esse é o modo que Davi adota para levar a arca a Sião!

É verdade que Deus permita aos filisteus aprender a sua lição desse modo, e isso talvez fosse o motivo de Davi adotar o mesmo meio, mas essa imitação não tinha desculpa. Deus falara sobre o assunto e a ignorância do que Ele determinara mostrava descuido, ou aquecimento culpável.

Como podia Deus neste frisante exemplo, perante os olhos da nação inteira, estabelecer um precedente para os tempos futuros, e fazer pouco caso da Sua própria honra?

E vão atrás dos filisteus, como todos os imitadores costumam fazer. Os filisteus tinham pensado que, se Jeová era Deus, o gado havia de Lhe obedecer em qualquer direção humana, e até contra seus próprios instintos. Mas os israelitas, ao entregarem a arca ao carro, querem que Uzá e Aio guiem o gado. Não têm confiança no seu próprio expediente e já estão entregues à obra perigosa de contas os próprios recursos no caso de aparecer qualquer dificuldade. Nada mais então tinham aprendido durante todos os anos em que a arca estivera na casa de Abinadabe!

Contudo a coisa vai bem no princípio. Há regozijos e abundantes demonstrações de lealdade da parte do povo, até que chegando ao lugar preparado, os bois tropeçam e Uzá estende a mão e segura a arca. Uzá significa "força", mas ele não se havia medido na presença de Deus, nem aprendido a verdadeira fonte da força. Seu ato revela o que a arca significa para ele – o ato de uma alma ignorante de Deus e de si mesmo. Ele é ferido, e o eirado preparado vem a ser Perez – Uzá, "o quebramento da força". Uzá morreu porque a obra de Deus naqueles dias se tornou uma coisa comum. Tão comum que os sacerdotes esqueceram que a arca só poderia ser transportada nos ombros dos sacerdotes (1Cr 15.13-15).

É estranho que no serviço do santuário Davi fosse tão ignorante: mas casos semelhantes abundam entre nós hoje. O fato de ser bem-intencionada muitas vezes impede a pessoa de procurar indagar a vontade do Senhor, ou de verificar tudo pela Sua Palavra. Se a coisa proposta for boa em si, por que tanto escrúpulo quanto a modos e métodos? Quão pouco compreendemos a falta de reverência que jaz sob uma aparência de devoção honesta, onde presume-se que a sabedoria humana é suficiente para tomar uma resolução sem consultar a Deus, ou a força humana suficiente para operar a Sua vontade! Quantas vezes nossos "Uzás são feridos, justamente quando imaginamos que nosso serviço deve ser bem aceitável a Deus!

Se o suicídio é um pecado, por que Deus abençoou Sansão por tê-lo cometido?

Se o suicídio é um pecado, por que Deus abençoou Sansão por tê-lo cometido?

O suicídio é uma forma de assassinato e Deus disse: "Não matarás" (Êx 20.13). Há muitos casos de suicídio na Bíblia e nenhum deles recebeu aprovação de Deus. Contudo, Sansão cometeu suicídio com o aparente consentimento do Senhor.

Sansão não tirou a sua vida; ele sacrificou-se por seu povo. Há uma grande diferença. Jonas orou: "Peço-te, pois, ó Senhor, tira-me a vida, porque melhor me é morrer do que viver" (Jn 4.3). Mas Jonas nunca tirou a sua vida.

O suicídio é um ato "para si mesmo". O que Sansão fez foi entregar a sua vida pelos outros – pelo seu povo. O ato de Sansão foi um ato de suicídio tanto quanto o foi o ato de Cristo, quando este disse: "dou a minha vida" (Jo 10.15), porque "o bom pastor dá a vida pelas ovelhas" (Jo 10.11). Com efeito, "ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria a vida em favor dos seus amigos" (Jo 15.13).

É claro que nem toda aparente morte "pelos outros" é realmente um ato de amor. Paulo deixou isso evidente no seu grande capítulo acerca do amor: "e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará" (1Co 13.3). Até mesmo um mártir pode morrer sem que haja amor, mas numa obstinada entrega a uma causa centralizada na SUS própria pessoa. Saul optou pela morte, dizendo: "para que porventura ao venham estes incircuncisos, e me traspassem e escarneçam de mim" (1Sm 31.4).

Abimeleque procurou a morte, e disse a seu escudeiro: "mata-me, para que não se diga de mim: Mulher o matou" (Jz 9.54).

Em contraste, Sansão pediu permissão a Deus para morrer, e orou: "Morra eu com os filisteus" (Jz 16.30). Deus acedeu ao seu pedido, "e foram mais os que matou na sua morte do que os que matara na sua vida" (v.30). Paulo também desejou "ser anátema, separado de Cristo, por amor de "seus irmãos (Rm 9.3). O soldado que se atira sobre uma granada para salvar a vida de seus companheiros não está tirando a sua vida, não está se suicidando; ele está dando a sua vida pelos outros.

De igual modo, Cristo não cometeu suicídio, tendo ele vindo para "dar a Sua vida em resgate por muitos" Mc 10.45

O que é de fato o pregador – Parte 1 - John Stott

 

A primeira observação que desejo fazer com respeito ao que é ou deve ser o pregador.

Não é um profeta. Ele não recebe uma mensagem de Deus como revelação original e direta. Na verdade, algumas pessoas usam de forma errada a palavra "profeta" hoje em dia. Com freqüência ouvimos que quem prega com fervor ser descrito como quem tem "unção profética"; já que ele sabe interpretar e discernir os sinais dos tempos, que vê a mão de Deus nos fatos do dia-a-dia e procura interpretar o significado das tendências sociais e políticas, diz-se às vezes que é profeta ou tem intuição profética. Afirmo com convicção que o uso do título "profeta" é inadequado.

A característica essencial do profeta não era prever o futuro nem interpretar a atividade presente de Deus, mas falar as palavras de Deus. Como Pedro explicou, "nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana, entretanto homens falaram da parte de Deus movidos pelo Espírito Santo" (2Pe 1.21).

Então, o pregador precisa ter cuidado quando afirma do púlpito eu: "profetizo", vez que o termo foi banalizado, tornando-se uma falácia,de maneira que, é como atirar no escuro, se pegar pegou,ou seja, se der certo foi Deus. E se não der certo? Quem assumirá as responsabilidades?

Portanto o pregador cristão não é um profeta. Ele não recebe nenhuma revelação original; sua tarefa é expor a revelação que já foi definitivamente dada. E embora pregue no poder do Espírito Santo, ele não é "inspirado" pelo Espírito no sentido em que os profetas o foram. Certo, "se alguém fala", deve falar "de acordo com os oráculos de Deus", ou "como se pronunciasse palavras de Deus" (1Pe 4.11).

Agora que a Palavra de Deus escrita está à disposição de todos nós, a Palavra de Deus no discurso profético não é mais necessária. A Palavra de Deus não vem mais aos homens hoje. Ela já veio a todos os homens; agora os homens é que precisam ir a Ela.

Não é um apóstolo. O pregador cristão, também não é um apóstolo. A igreja é apostólica por ter sido fundada sobre a doutrina dos apóstolos e enviada ao mundo para pregar o evangelho. Mas os missionários que plantam igrejas não devem ser chamados "apóstolos". O termo é incorreto, mas este assunto é matéria para outro momento. A única base para o apostolado era a comissão pessoal, à qual devemos acrescentar um encontro com Jesus após a ressurreição. Nunca mais haverá ou poderá haver pessoas que possuam todas as qualificações para o serem.

Portanto assim como a palavra "profeta" deve ser reservada para as pessoas no Antigo Testamento e no Novo, a quem a palavra de Deus veio diretamente, quer sua mensagem tenha chegado até nós, quer não a caracterização de alguém como "apóstolo" deve ser reserva aos Doze e Paulo, pois foram especialmente comissionados e investidos de autoridade por Jesus como tal. Esses homens eram únicos. Não deixaram sucessores.

Não é um falso profeta ou falso apóstolo. O pregador não é e nem deve ser um falso profeta ou um falso apóstolo. Ambos aparecem na Bíblia, e a diferença entre o verdadeiro e o espúrio é claramente definida em Jeremias 23. O verdadeiro profeta é alguém que "esteve no conselho do Senhor, e viu e ouviu a sua palavra" (v.18,22). Já os falsos profetas "falam as visões do seu coração, não o que vem da boca do Senhor" (v.16).

Eles proclamam só o engano do seu próprio coração "(v.26). Proclamam mentiras em nome de Deus (v.25). O contraste aparece com toda a força no versículo 28: "... o profeta que tem sonho conte-o como apenas sonho; mas aquele em quem está a minha palavra, fale a minha palavra com verdade. Que tem a palha com o trigo? diz o Senhor". A opção é entre ouvir "cada um a sua própria palavra" e "ouvir as palavras do Deus vivo" (v.36).

Embora não existam mais profetas e apóstolos, temo que haja falsos profetas e falsos apóstolos. Gente que fala as próprias palavras e não a Palavra de Deus. A mensagem vem de suas mentes. Gente que gosta de ventilar suas opiniões sobre religião, ética, teologia e política. Elas podem até seguir a tradição de iniciar seus sermões com um texto bíblico, mas o texto tem pouca ou nenhuma relação com a mensagem que se segue, e não há nenhuma tentativa de interpretar o texto dentro de seu contexto próprio.

Além disso, com muita freqüência esses pregadores, a exemplo dos falsos profetas do Antigo Testamento, usam palavras agradáveis, "dizendo: Paz, paz; quando não há paz" (Jr 6.14, 18.11, cf. 23.17). E nem tocam nos pontos menos "agradáveis" do evangelho, para não ofender o gosto dos ouvintes (Jr 5.30-31).

Não é um tagarela. Essa foi a palavra usada pelos filósofos atenienses no Areópago para descrever Paulo (At 17.18). Metaforicamente, a palavra passou a ser aplicada a mendigos e moleques de rua, "pessoas que vivem de recolher sobras, catadoras de lixo". Daí, passou a indicar o tagarela ou fofoqueiro, "pessoa que recolhe fragmentos de informação aqui e acolá". O "tagarela" repassa idéias como mercadoria de segunda mão, colhendo fragmentos e detalhes onde se encontra; Seus sermões são uma verdadeira colcha de retalhos.

A característica essencial do tagarela é que ele não é capaz de pensar por si. Sua opinião em dado momento é certamente a da última pessoa que ele ouviu. Ele depende das idéias dos outros, sem peneirá-las nem pesá-las, nem apropriar-se delas para si. Como os falsos profetas criticados por Jeremias, ele usa apenas a "língua", e não a mente ou o coração, e é culpado de "furtar" a mensagem de outra pessoas (Jr 23.30,31).