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quinta-feira, 21 de maio de 2009

"O JESUS DA HISTÓRIA E O CRISTO DA FÉ"

No início deste século, a crítica literária e histórica dos Evangelhos, influenciada pelo avanço da historiografia, entrou num impasse e confessou-se incapaz de atingir o " Jesus da história". O biblista luterano R. Bultmann rompeu o impasse ao concluir que a fé das comunidades em Cristo não dependia da historicidade dos relatos evangélicos sobre Jesus, mas sim de Deus e da sua Palavra. Ele estabelecera assim uma distinção entre o Jesus da História e o Cristo da Fé. Esse problema é muito antigo. Sua origem está nos escritos do Novo Testamento nos quais o Cristo da Fé das comunidades helenistas aparece muito diferente de Jesus da História que viveu na Galiléia, confinado no tempo e no espaço. Como é então que Jesus de Nazaré chegou a ser figura universal e cósmica que transparece nas cartas paulinas, 1Co 2.8; 6.6; Fl 2.10; Ef 1.1-2,22; Cl 1.15-20, e no Apocalipse, Ap 1.12-16;5.6-14,? Mediante a análise de um texto do Evangelho de João e da Carta aos Efésios, vejamos como esse problema se apresentava para as primeiras comunidades cristãs e como foi resolvido sem detrimento nem da fé nem da história. Jo 20.11-18 "E Maria estava chorando fora, junto ao sepulcro. Estando ela, pois, chorando, abaixou-se para o sepulcro.E viu dois anjos vestidos de branco, assentados onde jazera o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés.E disseram-lhe eles: Mulher, por que choras? Ela lhes disse: Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram.E, tendo dito isto, voltou-se para trás, e viu Jesus em pé, mas não sabia que era Jesus. Disse-lhe Jesus: Mulher, por que choras? Quem buscas? Ela, cuidando que era o hortelão, disse-lhe: Senhor, se tu o levaste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei.Disse-lhe Jesus: Maria! Ela, voltando-se, disse-lhe: Raboni (que quer dizer, Mestre). Disse-lhe Jesus: Não me detenhas, porque ainda não subi para meu Pai, mas vai para meus irmãos, e dize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus. Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos que vira o Senhor, e que ele lhe dissera isto.", é um texto que requer nossa atenção. Descreve a aparição de Jeus a Madalena. O autor procurou orientar a comunidade na vivência da fé em Jesus ressuscitado e presente: " Bem aventurados os que não viram e creram", jo 20.29. Maria Madalena está perto do sepulcro e chora. A morte privou-a para sempre da presença do Mestre e amigo. O único ponto de contato era o sepulcro onde foi colocado o seu corpo. Maria não sai de lá. Ela quer preservar o lugar e os momentos em que tinha experimentado pela última vez a presença daquele que tinha marcado sua vida para sempre. Olhando para dentro do sepulcro, ela vê dois anjos. eles pergutnam: Mulher por que choras?" Mas a atenção e o afeto de Madalena estão de tal modo voltados ao passado que não lhe passa pela cabeça que a presença e a pergunta dos dois anjos possam significar algo novo e diferente. Ela só sabe dizer: "Levaram o meu Senhor e não sei onde o colocaram!", Jo 20.13. Em seguida , o próprio Jesus se apresenta e pergunta: " Mulher, por que choras? A quem procuras?" Jo 20.13. Mas a saudade, a lembrança do passado, a fixação na pessoa de Jesus tal como tinha conhecido impedem de perceber a presença do próprio Jesus que conversa com ela. O Jesus da história impedia de reconhecer o Cristo da fé. Seus olhos só se abrem quando Jesus a chama pelo nome" Miriam" v.16 . Mas o simples reconhecimento ainda não é a experi~encia da ressurreição. Ela diz: "Raboni!". É o nome de antes, de quando ainda convivia com Jesus. Ainda não é o nome do Ressuscitado. para madalena, no momento em que reconheceu Jesus, tudo voltou a ser como antes. Ela tenta agarrar Jesus para retê-lo e impedir que alguém o leve de novo. Ainda não percebe que a presença não é a mesma de antes, que a vida é a vida de Ressurreição. Falta o passo decisivo que Jesus ajuda a dar: "Não me retenhas!" Em vez de reter, Madalena deve aprender a soltar . Ela só possuirá a vida quando estiver disposta a perdê-la, Mc 8.35. Só resta a ela e a nós soltar todas as certezas construídas anteriormente e ficar com a certeza da fé: "Ele está vivo no meio de nós!" Presença amiga, absolutamente certa, que não pode ser manipulada nem assegurada por nosso esforço! È na entrega total de tudo que está a fonte da plena liberdade. A experiência da gratuidade dessa presença amiga enche a vida de tal modo que a pessoa se sente impelida a partilhá-la com os outros. Em vez de ficar parada, fixada em Jesus, Madalena sai para annciá-lo à comunidade, proclamando: " Vi o Senhor!"