quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Deus é autor ou causador de todas as mazelas praticadas pelo ser humano? A falsa afirmação do Determinismo – Livre arbítrio – Final

Determinismo não é bíblico. Os oponentes teístas do determinismo oferecem várias objeções a partir das Escrituras. Definir livre-arbítrio como "fazer o que se quer" é contrário à realidade. Pois as pessoas nem sempre fazem o que querem, nem desejam sempre fazer o que fazem (cf. Rm 7.15,16)

Se Deus deve conceder o desejo antes de a pessoa poder executar uma ação, então Deus deve ter dado a Lúcifer o desejo de se rebelar contra Ele. Mas isso é impossível, pois nesse caso Deus daria um desejo contra Deus. Deus estaria contra Si mesmo, o que é impossível.

Os deterministas teístas como Edwards têm uma visão falha e mecanicista da personalidade humana. Ele equipara o livre-arbítrio humano a balanças que precisam de mais pressão de fora para pender. Seres humanos, entretanto, não são máquinas; são pessoas feitas à imagem de Deus (Gn 1.27).

Edwards pressupõe equivocadamente que autodeterminismo é contrário à soberania de Deus. Pois Deus poderia ter predeterminado as coisas de acordo com o livre-arbítrio, não em contradição a Ele. Até a Confissão de Fé de Westminster, que é calvinista, declara: "Posto que, em relação à presciência e ao decreto de Deus que é a causa primária, todas as coisas acontecem imutável e infalivelmente, contudo, pela mesma providência. Deus ordena que elas sucedam, necessária, livre ou contingentemente, conforme a natureza das causas secundárias"

 

Fontes:

Agostinho, Sobre o livre-arbítrio.

J.Edwards, Freedom of the Will

J.Fletcher, Cheeks to antinomianism.

D.Hume, The letters of David Hume

M. Lutero, Bondage of the Will – on Grace and free Will

B.F. Skinner, Beyond behaviorism – Beyhond freedom and dignity.

Thomás de Aquino, Summa theologica.

 

 

Deus é autor ou causador de todas as mazelas praticadas pelo ser humano? A falsa afirmação do Determinismo – Livre arbítrio – Parte 3

Resposta ao argumento da onisciência. É verdade que tudo o que Deus sabe deve acontecer segundo Sua vontade. Senão, Deus estaria errado quanto ao que soubesse, pois a Mente onisciente não pode estar errada sobre o que sabe. Mas isso não significa que todos os eventos são determinados (i.e., causados por Deus). Deus poderia simplesmente determinar que fôssemos seres autodeterminantes no sentido moral.

O fato de Ele saber com certeza o que as criaturas livres farão com sua liberdade é suficiente para estabelecer que as ações livres humanas não são determinadas (causadas) por outra pessoa. Deus determinou o fato da liberdade humana, mas as criaturas livres executam as ações da liberdade humana.

Pontos fracos do determinismo. O determinismo é contraditório. O determinista insiste em que deterministas e não-deterministas estão determinados a acreditar no que acreditam. Mas os deterministas acreditam que autodeterministas estão errados e devem mudar de opinião. Contudo " devem mudar" implica que eles estão livres para mudar, o que é contrário ao determinismo.

O determinismo é irracional. C.S. Lewis argumentou que o determinismo naturalista e completo é irracional. Para o determinismo ser verdadeiro, seria necessária uma base racional para seu pensamento. Mas, se o determinismo é verdadeiro, não há base racional para o pensamento, já que tudo é determinado por forças não racionai. Portanto, se o determinismo afirma ser verdadeiro, então deve ser falso.

O determinismo destrói a responsabilidade humana. Se Deus é a causa de todas as ações humanas, então os seres humanos não são moralmente responsáveis. A pessoa só é responsável por uma escolha se houve livre-arbítrio para fazer ou deixar de fazê-la. Toda responsabilidade implica a habilidade de responder, ou por si mesmo ou pela graça de Deus. Dever implica poder. Mas, se Deus causou a ação, então não poderíamos evitá-la. Logo, não somos responsáveis.

O determinismo anula o elogio e a culpa. Da mesma forma, se Deus causa todas as ações humanas, não faz sentido louvar os seres humanos por fazerem o bem, nem culpá-los por fazerem o mal. Pois, se os corajosos não tivessem outra escolha além de demonstrar coragem, por que recompensá-la? Se os maus não tivessem escolha além de cometer seus crimes, por que puni-los? Recompensas e castigos por comportamento moral só fazem sentido se as ações não foram causadas por outro.

Determinismo leva ao fatalismo. Se tudo é determinado além do nosso controle, por que fazer o bem e evitar o mal? Na verdade, se o determinismo estiver correto, o mal é inevitável. O determinismo destrói a própria motivação de fazer o bem e esquivar-se do mal.

Deus é autor ou causador de todas as mazelas praticadas pelo ser humano? A falsa afirmação do Determinismo – Livre arbítrio – Parte 2

Uma resposta ao determinismo teísta. Os não-deterministas, principalmente os autodeterministas, rejeitam as premissas dos argumentos deterministas. É importante distinguir duas formas de determinismo, rígido e moderado. O determinismo rejeitado aqui é o determinismo rígido:

Determinismo rígido 

Determinismo moderado 

Ação é causada por Deus. 

Ação não é causada por Deus 

Deus é a única causa. 

Deus é a causa primária; seres humanos são a causa secundária. 

O livre-arbítrio humano total é eliminado. 

O livre-arbítrio humano é compatível com a soberania. 

 O determinismo moderado às vezes é chamado compatibilismo, já que é "compatível" com o livre-arbítrio (autodeterminismo). Apenas o determinismo rígido é incompatível com o livre-arbítrio ou a causalidade e secundária do a alternativa.gente humano livre.

Resposta ao argumento da possibilidade alternativa. Todo comportamento humano é não causado, autocausado ou causado por outra coisa. Mas o comportamento humano pode ser autocausado, já que não há nada contraditório sobre uma ação autocausada (como há sobre um ser autocausado). Pois uma ação não precisa ser anterior a si mesma para ser causada por si própria. Apenas o ser (eu) precisa ser anterior à ação. Uma ação autocausada é apenas causada por mim mesmo. E eu mesmo sou anterior às minhas ações.

Resposta ao argumento da natureza da causalidade. Jonathan Edwards argumentou corretamente que todas as ações são causadas, mas isso não significa que Deus seja a causa de todas essas ações. A ação autocausada não é impossível, já que a pessoa é anterior às suas ações.

Portanto, nem todas as ações precisam ser atribuídas à Primeira Causa (Deus). Algumas ações podem ser causadas por seres humanos aquém Deus deu liberdade moral. Livre-arbítrio não é como Edwards afirma, fazer o que quer (com Deus dando os desejos). Mas é fazer o que se decide. E nem sempre fazemos o que desejamos, como é o caso em o que dever é colocado do desejo. Logo, não podemos concluir que todas as ações são determinadas por Deus.

Resposta ao argumento da soberania. Não é preciso rejeitar o controle soberano de Deus sobre o universo para acreditar que o determinismo está errado. Pois Deus tem o controle pela Sua onisciência, assim como por Seu poder causal. Como o próximo ponto revela, Deus pode controlar eventos ao desejar, segundo Seu conhecimento onisciente, o que acontecerá pelo livre-arbítrio. Deus não precisa criar (ou causar) a escolha do homem. Apenas ter a certeza de que uma pessoa fará algo livremente é suficiente para Deus controlar o mundo.

Deus é autor ou causador de todas as mazelas praticadas pelo ser humano? A falsa afirmação do Determinismo – Livre arbítrio - Parte 1

Determinismo. Determinismo é a crença de que todos os eventos, inclusive escolhas humanas, são determinados ou causados por outro. Os defensores dessa visão acreditam que escolhas humanas são o resultado de causas antecedentes, que por sua vez foram causadas por causas anteriores.

Tipos de determinismo. Há dois tipos básicos de determinismo: naturalista e teísta. Deterministas naturalistas incluem o psicólogo comportamental B. F. Skinner, autor de Beyond freedom and dignity. Ateu, Skinner escreveu que todo comportamento humano é determinado por fatores genéticos e comportamentais. Nessa teoria, humanos são como um pincel nas mãos de um "artista", ser uma mistura de manipulação societária e acaso. O ser humano à mercê dessas forças, simplesmente como instrumento por meio do qual elas se expressam.

A versão teísta dessa visão insiste em que Deus é a causa final que determina todas as ações humanas. Trata-se da visão defendida por todos os calvinistas ferrenhos.

Argumentos a favor do determinismo. O argumento da possibilidade alternativa. Todo comportamento humano é não causado, autocausado ou causado por outra coisa. Mas o comportamento humano não pode ser não causado, já que nada acontece sem uma causa. Além disso, ações humanas não podem ser autocausadas, pois nenhuma ação pode causar a si mesma. Para isso, teria que se anterior a si mesma, o que é impossível. A única alternativa restante, então, é que todo comportamento humano é causado por algo externo a ele.

O argumento da natureza da causalidade. Edwards argumentou com base na natureza da causalidade. Ele raciocinou que, já que o princípio da causalidade exige que todas as ações sejam causadas, então é irracional afirmar que coisas surgem sem uma causa. Mas para Edwards uma ação autocausada é impossível, já que a causa é anterior ao efeito, e algo não pode ser anterior a si mesmo.

Portanto, no final das contas, todas as ações são causadas pela Primeira Causa (Deus). "Livre-arbítrio" para Edwards é fazer o que se quer, mas Deus dá os desejos ou afeições que controlam a ação. Logo, todas as ações humanas são determinadas por Deus.

O argumento da soberania. Se Deus é soberano, então todas as ações devem ser determinadas por ele. Se deus controla tudo, então ele deve ser a causa de tudo. Senão, não controlaria tudo.

O argumento da onisciência. Alguns deterministas argumentam com base na onisciência de Deus. Pois, se Deus sabe tudo, então tudo que Ele sabe deve acontecer conforme Sua vontade. Se não fosse assim, Deus estaria errado sobre o que soubesse. Mas a Mente onisciente não pode estar errada sobre o que sabe.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Os galardões são iguais para todos, ou diferem em grau?

O internauta Wallace indaga:

3- A questão de eleição e predestinação, não entendo muito bem,sobre os "escolhidos":

"Mateus 20.16 Assim os derradeiros serão primeiros, e os primeiros derradeiros; porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos."

"Mateus 24.22

E, se aqueles dias não fossem abreviados, nenhuma carne se salvaria; mas por causa dos escolhidos serão abreviados aqueles dias."

"Mateus 24.24

Porque surgirão falsos cristos e falsos profetas, e farão tão grandes sinais e prodígios que, se possível fora, enganariam até os escolhidos."

 

Respondendo em parte

Os galardões são iguais para todos, ou diferem em grau? (Mt 19.30; 20.16)

 

Jesus contou uma parábola do seu reino, na qual cada servo recebeu o mesmo pagamento, ainda que cada um tivesse trabalhado um número diferente de horas. Todavia, em outras partes, a Bíblia fala de diferentes graus de recompensa pelo trabalho no reino de Deus (cf. 1 Co 3.33-15; 2 Co 5.10; Ap 22.12)

 

Há diferentes graus de recompensa no céu, dependendo de nossa fidelidade a Cristo na terra. Jesus disse: "e eis que venho sem demora, e comigo está o galardão que tenho para retribuir a cada um segundo as suas obras" (Ap 22.12) Paulo disse que a obra de cada crente vai ser provada pelo fogo e, " se permanecer a obra de alguém que sobre o fundamento edificou esse receberá galardão" (1Co 3.14).

Em 2 Coríntios 5 está escrito que todos nós haveremos de aparecer perante o tribunal de Cristo, "para que cada um receba segundo o bem ou o mal que tiver feito"(v.10)

Na parábola de Mateus 20, a questão não é predestinação, eleição, nem que todos os galardões serão o mesmo, mas que todas as recompensas são pela graça. É para mostrar que Deus recompensa com base na oportunidade, não simplesmente de acordo com a realização.

Nem todos os servos tiveram igual oportunidade para trabalhar para o senhor o mesmo número de horas; entretanto, todos receberam o mesmo pagamento. Deus olha para a nossa disposição assim como para as nossas ações, e nos julga segundo esses dois aspectos.

Observemos que os últimos são os trabalhadores que vieram por último, e os primeiros, os que vieram primeiro. Para trabalhar, os primeiros vêm primeiro, mas para receber o galardão, os últimos tornam-se os primeiros. É assim que o Senhor faz dos últimos primeiros e dos primeiros, últimos.

Por último, os versículos que você (Wallace) cita, nada têm com predestinação ou eleição. Estes dois últimos, em breve postarei com detalhes.

Quanto ao versículo 24 de Mateus 22, os "escolhidos" são os judeus. Este evento ocorrerá no período da Grande Tribulação, o que também é assunto para outro momento.

Batismo com fogo: O que é?

O internauta Wallace indaga:

1- Certo pastor com o qual eu caminhava, dizia que havia dois tipos de batismo, com o Espírito Santo, e o com fogo:

Mateus 3.11-12

"E eu, em verdade, vos batizo com água, para o arrependimento; mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu; cujas alparcas não sou digno de levar; ele vos batizará com o Espírito Santo, e com fogo. Em sua mão tem a pá, e limpará a sua eira, e recolherá no celeiro o seu trigo, e queimará a palha com fogo que nunca se apagará."

Ele dizia que a palha era nossos defeitos, e o que nos impedia de receber o poder como os apóstolos receberam,de falar nas línguas de outros povos e eles entenderem,

curas, milagres de maneira abundante, seria o batismo com fogo.

Senão me engano ele mencionou até uma profecia que um vaso entregou a ele.

Isso é certo?

 

Respondendo ao internauta Wallace Amorim

Mateus 3.11-12

À luz da Hermenêutica e da Exegese, de acordo com o contexto, o fogo aqui não é o fogo de At 2.3, relacionado ao Espírito Santo, mas é o mesmo fogo dos vs. 10 e 12, o fogo do lago de fogo (Ap 20.15), onde os incrédulos sofrerão a perdição eterna. As palavras de João ditas aqui aos fariseus e saduceus significam que se eles verdadeiramente se arrependessem e cressem no Senhor, este os batizaria no Espírito Santo para terem a vida eterna; doutra sorte, o Senhor os batizará no fogo, lançando-os no lago de fogo como castigo eterno.

João Batista, não podendo sugerir uma pessoa em nome de quem batizasse o povo, apontou para o arrependimento como centro espiritual dos piedosos, e falou de outrem, que usaria outro batismo, não de água, mas como o Espírito Santo e com fogo.

O batismo de João visava somente o arrependimento, para conduzir as pessoas à fé no Senhor. O batismo do Senhor ou visa à vida eterna no Espírito Santo ou leva à perdição eterna no fogo.

O batismo do Senhor no Espírito Santo deu início ao reino dos céus, introduzindo os Seus crentes no reino dos céus, ao passo que Seu batismo no fogo porá fim ao reino dos céus, lançando os incrédulos no lago de fogo.

Portanto, o batismo do Senhor no Espírito Santo, o qual se baseia na Sua redenção, é o início do reino dos céus, enquanto Seu batismo no fogo, que se baseia no Seu juízo, é o fim desse reino.

Assim, neste versículo há três tipos de batismo: o batismo em água, o batismo no Espírito Santo e o batismo no fogo.

O batismo em água, efetuado por João, apresentou as pessoas ao reino dos céus. O batismo no Espírito Santo, efetuado pelo Senhor Jesus, iniciou e estabeleceu o reino dos céus no dia de pentecostes, e o levará até a consumação no final desta era. O batismo no fogo, a ser efetuado pelo Senhor de acordo com o julgamento no grande Trono Branco (Ap 20.11-15), concluirá o reino dos céus.

Os que são tipificados pelo trigo têm vida no seu interior. O Senhor os batizará no Espírito Santo e, pelo arrebatamento, os recolherá ao Seu celeiro nos ares. Os que são tipificados pela palha, como o joio em (Mt 13.24-30), não têm vida. O Senhor os batizará no fogo, lançando-os no lago de fogo.

A palha aqui se refere aos judeus impenitentes, enquanto o joio no capítulo 13 se refere aos cristãos nominais. O destino eterno de ambos será o mesmo: a perdição no lago de fogo (13.40-42).

Devemos guardar um "sábado”? - Não é um dos 10 mandamentos?

O internauta Wallace indaga:

2- Devemos guardar um "sábado"?

Um dia em sete para dedicarmos única e exclusivamente a Deus?

Não é um dos 10 mandamentos?

Não tenho essa questão muito bem esclarecida em minha mente.

Respondendo

O sábado (Mt 12.1-8)

Santificar o sábado

Embora a guarda do sábado fosse um sinal entre Deus e os "filhos de Israel" (Êx 31.17), essa parte da lei tem preciosa instrução para nós cristãos. Ensina-nos:

  1. Que trabalhar seis dias em sete é o suficiente.
  2. Que um descanso semanal é proveitoso física, mental e espiritualmente.
  3. Que um preocupação constante com o trabalho material pode resultar em prejuízo espiritual.
  4. Que Deus compreende melhor do que nós o nosso maior proveito
  5. Que o povo de Deus, nos seus dias disponíveis, tende a ocupar-se com serviço espiritual.
  6. Que o homem precisa trabalhar seis dias para merecer o descanso no sétimo.

Um dia de descanso, conforme mencionamos era concedido a Israel como privilégio: o sinal da aliança com Jeová. Não era baseado nos eternos princípios da moralidade como os outros mandamentos; seu caráter era mais cerimonial que moral, e o privilégio do descanso semanal poderia perder-se caso fosse violada a aliança. O Senhor "expõe toda a condição do povo perante Deus, (Mt 12.1-8) mostrando que devido à sua descrença nEle, o Senhor do sábado, os judeus, rejeitando-O, perderam o direito ao sábado."

Davi, o rei ungido, mas rejeitado, tinha necessidade de pão, e a aliança, com seus privilégios e cerimônias, estava suspensa, devido à rejeição do ungido do Senhor. Por isso o pão sagrado era, num sentido, comum. Quanto mais quando o antítipo de Davi estava no mundo, mas rejeitado, e eles estavam ocupados com a santidade do dia de descanso que Deus lhes tinha dado!Como podia o sábado permanecer para aqueles que rejeitaram o Senhor do sábado?

As palavras do Senhor aqui implicam que Ele é o verdadeiro Davi. Davi, aparentemente violando a lei levítica, comeu do pão da proposição. Agora, o verdadeiro Davi e Seus seguidores foram rejeitados e os discípulos colheram espigas e comeram, aparentemente indo contra o preceito sabático. Assim como Davi e seus seguidores não foram considerados culpados, assim também Cristo e Seus discípulos não deveriam ter sido condenados.

Além do mais, as palavras do Senhor aqui implicam a transição dispensacional do sacerdócio para a realeza. Nos tempos antigos, o surgimento de Davi mudou a dispensação, da era dos sacerdotes para a dos reis, na qual os reis estavam acima dos sacerdotes. Na era dos sacerdotes, o líder do povo tinha de dar ouvidos ao sacerdote (Nm 27.21-22). Mas na era dos reis, os sacerdotes tinham de submeter-se ao rei (1Sm 2.35-26).

Portanto, o que fez o rei Davi juntamente com seus seguidores não foi ilegal. Agora, a vinda de Cristo mudou a dispensação novamente, desta vez da era da lei para a da graça, na qual Cristo está acima de tudo. O que quer que Ele faça está correto.

Como Senhor do sábado, uma transição que lhe reivindicava os direitos, Ele tinha o direito de mudar os preceitos relacionados ao sábado.

De forma mais detalhada podemos asseverar:

  1. A base para o mandamento de observar o sábado, como estabelecido em Êxodo 20.11, é que Deus descansou no sétimo dia, depois de seis dias de trabalho, e que Ele abençoou e santificou o sétimo dia. O dia de sábado foi instituído como um dia de descanso e culto. O povo de Deus deveria seguir o exemplo do próprio Deus, no seu trabalho e descanso. Entretanto, como Jesus disse, corrigindo a visão distorcida dos fariseus, "O sábado foi estabelecido por causa do homem, e não o homem por causa do sábado" (Mc 2.27). O que Jesus quis dizer é que o sábado não foi instituído para escravizar as pessoas, mas para beneficiá-las. O espírito da observância do sábado é preservado no Novo Testamento com a observância do descanso e do culto no primeiro dia da semana.
  2. Deve-se lembrar que, de acordo com Colossenses 2.17, o sábado era uma "sombra das coisas que haviam de vir, porém o corpo é de Cristo". A observância do sábado estava associada com a redenção citada em Deuteronômio 5.15, onde Moisés determinou: "porque te lembrarás que foste servo na terra do Egito, e que o senhor teu Deus te tirou dali com mão poderosa, e braço estendido: pelo que o Senhor teu Deus te ordenou que guardasses o dia de sábado". O sábado era sombra da redenção que viria com Cristo; simbolizava o descanso de nossas obras e a entrada no descanso que Deus propiciou com a sua obra consumada.

Finalmente, embora os princípios morais expressos nos mandamentos sejam reafirmados no Novo Testamento, o mandamento de separa o sábado como o dia de descanso e de culto a Deus é o único mandamento que não é repetido. Há muito boas razões para isso.

Os crentes do Novo Testamento não estão debaixo da Lei do antigo Testamento (Rm 6.24; Gl 3.24-25). Pela ressurreição de Jesus no primeiro dia da semana(Mt 28.1), por suas contínuas aparições em vários domingos (Jo 20.26), e pela descida do Espírito santo num dia de domingo (At 2.1), a igreja primitiva passou a cultuar no domingo, regularmente (At 20.7; 1Co 16.2).

O culto no domingo foi ainda consagrado pelo Senhor quando ele apareceu a João naquela última grande visão "no dia do Senhor" (Ap 1.10). É por estas razões que os cristãos cultuam no domingo, em vez de o fazerem no sábado do judeus.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

DEVO APRENDER A COMO INTERPRETAR A BÍBLIA?

(Continuação) Princípio V de D. A. Carson -

Como A Universalidade Formal Dos Provérbios E Ditos Proverbiais Raramente São Uma Universalidade Absoluta

Compare estes dois ditos de Jesus: (a) "Quem não é comigo é contra mim; e quem comigo não ajunta espalha" (Mt 12.30). (b) "... Porque quem não é contra nós é por nós" (Mc 9.40; cf. Lc 9.50). Como com freqüência tem-se notado, estes ditos não se contradizem, se o primeiro foi expresso a pessoas indiferentes contra si próprias, e o segundo aos discípulos sobre outros, cujo zelo ultrapassa seus conhecimentos. Mas as duas afirmações são com certeza difíceis de conciliar, se cada um forem tomados absolutamente, sem pensar em tais questões.

Ou considere dois provérbios adjacentes em Provérbios 26: (a) "Não respondas ao tolo segundo a sua estultícia..." (26.4). (b) "Responde ao tolo segundo a sua estultícia…" (26.5). Se estes dois versículos são estatutos ou exemplos de leis casuísticas, há uma inevitável contradição. Por outro lado, a segunda linha de cada provérbio dá explicação suficiente de modo que enxergamos o que deveríamos ter visto: provérbios não são estatutos. Eles são sabedoria destiladas, freqüentemente escritas de forma pungente e aforística, que exige reflexão, ou que descreve efeitos na sociedade como um todo (mas não necessariamente em cada individuo), ou que exigem consideração de exatamente como e quando tal sabedoria é aplicada.

Escrevamos por inteiro estes dois provérbios de novo, mas desta vez com a segunda linha inclusa em cada caso: (a) "Não respondas ao tolo segundo a sua estultícia, para que também te não faças semelhante a ele". (b) "Responde ao tolo segundo a sua estultícia, para que não seja sábio aos seus olhos". Os versículos lado a lado como estão, estes dois provérbios exigirão reflexão sobre quando é a vez da prudência para refrear-se de responder aos tolos, a menos que sejamos arrastados para o nível deles, e quando é a vez da sabedoria oferecer réplica afiada, "tola" que tem o efeito alfinetar as pretensões do tolo. O texto não esmiúça isto explicitamente, mas se as explicações destes dois casos forem lembrados, nós teremos um princípio sólido de discriminação.

Então, quando uma bem conhecida organização eclesiástica ficar repetindo "Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele", como se fosse uma lei casuística, o que devemos pensar? Esta afirmação proverbial não deve ser roubada de sua força: um incentivo poderoso a uma educação infantil responsável, temente a Deus. Contudo, este versículo é um provérbio, e não uma promessa de uma aliança. Nem tão pouco o versículo especifica a que ponto a criança vai entrar na linha. É claro, muitas crianças, que cresceram em lares cristãos se desviam, porque os seus pais foram realmente tolos, ou não-bíblicos, ou completamente pecaminosos. Mas, muitos de nós já testemunhamos os fardos de culpa desnecessária e vergonha que pais realmente piedosos carregaram, quando seus filhos adultos, digamos já aos 40, e claramente não se converteram. Aplicar o provérbio de tal forma como se fosse para causar ou reforçar tal culpa não é somente pastoralmente incompetência, é hermeneuticamente incompetência. É fazer as Escrituras dizerem algo um pouco diferente do que seguramente pode ser inferido. Aforismos e provérbios dão percepção de como uma cultura sob Deus funciona, como relacionamentos funcionam, quais devem ser as prioridades. Eles não dão todas as exceções individuais em notas de rodapé e sob quais circunstâncias devem ser aplicados, e assim por diante.